Megadoses de vitaminas e minerais oferecem poucos ganhos e elevam risco de toxicidade, indicam pesquisas

O consumo de suplementos com doses muito acima das Ingestões Diárias Recomendadas (IDR) ganhou força no Brasil e no exterior, impulsionado por promessas de “blindagem” do sistema imunológico. Entretanto, levantamentos recentes e a análise da nutricionista Andreia Torres mostram que a estratégia, popularizada durante a pandemia de covid-19, gera benefícios limitados e pode levar a efeitos adversos.

Mercado em expansão e lacunas na fiscalização

Em 2022, o setor global de suplementos movimentou US$ 164 bilhões, grande parte dirigida a produtos que prometem reforço imune. No Brasil, a Resolução RDC 243/2018 define limites de nutrientes, mas a venda on-line facilita o acesso a cápsulas com 10 000 UI de vitamina D, 100 mg de zinco ou megadoses de selênio, muitas vezes sem prescrição.

Evidências científicas apontam ganhos pequenos

Estudo duplo-cego publicado no JAMA em 2020 avaliou 214 adultos resfriados que ingeriram 6 g diários de vitamina C; a duração dos sintomas caiu menos de oito horas, resultado sem relevância clínica. Já uma metanálise da Cochrane (2022) concluiu que doses superiores a 1 g/dia de vitamina C não previnem resfriados em pessoas saudáveis, embora possam ajudar atletas expostos a frio extremo.

Limites de segurança e riscos comprovados

Vitamina D acima de 10 000 UI/dia elevou níveis séricos e provocou hipercalcemia em 4 % dos participantes de um estudo publicado no BMJ em 2021. O Instituto de Medicina (IOM) fixa o limite superior em 4 000 UI/dia. Outros exemplos:

  • Zinco – 80 mg/dia por 12 semanas reduziu o cobre em 30 % e estimulou anemia ferropriva em idosos.
  • Vitamina B6 – consumo crônico acima de 100 mg/dia está ligado a neuropatia sensorial.
  • Selênio – ingestão muito alta aumenta risco de alopecia e dermatite.

Quando a megadose é indicada

Em alguns quadros clínicos, doses elevadas são prescritas sob controle laboratorial, como:

  • Deficiência comprovada de vitamina D (< 20 ng/mL): 50 000 UI/semana por oito semanas.
  • Anemia ferropriva grave: 120 mg/dia de sulfato ferroso, fracionado.
  • Doença inflamatória intestinal com má absorção de B12: 1 000 µg/mês por via intramuscular.
  • Protocolo AREDS2 para degeneração macular: 80 mg de zinco combinados a antioxidantes.

Etapas para uma prescrição segura

Segundo Andreia Torres, o profissional deve conduzir anamnese, avaliação dietética, exames bioquímicos, cálculo da ingestão atual e monitoramento de 8 a 12 semanas. A recomendação final inclui ajustes alimentares, qualidade de sono, manejo de estresse e atividade física, consideradas medidas mais consistentes para manter a imunidade.

Em resumo, megadoses de micronutrientes sem necessidade comprovada oferecem baixo retorno e podem desencadear toxicidade aguda ou crônica. A orientação é buscar avaliação individualizada antes de iniciar qualquer suplementação.

Com informações de Portal de Nutrição